Kaiji

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Kaiji

Mensagem por rpgmaster em 15/06/12, 09:55 am


Tá aí um anime que considero um dos melhores que já assiti, vale a pena ler essa review e posteriormente assistir o anime. Lembrando que essa é a primeira fase dele, pois há continuação já lançada e finalizada.

Kaiji é uma adaptação do mangá lançado entre 1996 e 1999 chamado Tobaku Mokujiroku Kaiji, que contém 13 volumes e foi criado por Nobuyuki Fukumoto, também criador do mangá sobre mahjong Akagi, que ainda é publicado. A direção do anime ficou a cargo de Yuzo Sato que, entre outros trabalhos, também dirigiu as séries Akagi, One Outs e, mais recentemente, Iron Man.
Itou Kaiji é apenas outro jovem que se mudou para Tóquio e fracassou na vida; depois de três anos vivendo na metrópole, atualmente não tem emprego e vive de pequenas apostas. Para extravasar sua frustração, pratica vandalismo em carros importados, tirando – e colecionando – seus emblemas.

Um nada.

Pode-se usar o lugar comum e dizer que sua vida muda totalmente – bem ou mal é relativo – quando recebe a visita de um homem de aparência não muito amigável que lhe avisa sobre uma dívida que ele deveria pagar; Kaiji há cerca de um ano deixou-se convencer e virou fiador de um amigo que pegou um empréstimo com a máfia, porém este sumiu há meses e não pagou nem um iene. A dívida inicial era de 300.000Y (cerca de R$6.000,00 hoje), contudo com os juros exorbitantes chegou ao valor de 3.850.000Y (R$ 78.000,00).
Óbvio, Kaiji não tem recursos para pagar isso; lembre-se, ele é um perdedor.

Mas lhe é apresentado uma chance de quitar a dívida. E ainda, talvez, sair lucrando. Para isso terá que entrar em um jogo que ocorrerá durante uma noite em um navio chamado Espoir – esperança, em francês – onde muitos outros homens, na mesma situação desesperadora que ele, também participarão. Se for um dos vencedores, sua dívida será quitada, e dependendo da sorte poderá ainda sair com algum dinheiro a mais e assim ter a chance de recomeçar sua vida. Porém – sempre tem um -, se for um dos perdedores, será obrigado a fazer trabalho escravo durante anos.

Kaiji hesita apesar da oportunidade única, no entanto arriscada; mas levado pela lábia de seu carrasco e ao mesmo tempo salvador, decide participar.

Não importa; a capa sempre é checada, analisada, mesmo por aqueles que não a julga importante para a decisão final. E aqui a ”capa“ de qual falo é o traço do anime. Traços que ao primeiro olhar se destacam, mas não de modo muito positivo para a maioria.

Kaiji – o anime, não o personagem; mas ele está incluso nisso... – tem traços caricatos e exagerados nas fisionomias; além disso, possui contornos fortes, salientes. À primeira vista, chamam mesmo a atenção. Diria ”traços feios“; quando os vi pensei e disse realmente ”traços feios“.

Mudemos para ”traços diferentes“. Um estilo, uma variedade. Um gosto.

Só que quanto ao resto da animação, é digna do prestígio que a Madhouse carrega; o cenário à volta é bem construído e às vezes rico em detalhes. Mas, os traços ”diferentes“ das personagens...

O ruim dessa ”diferença“ é que muitos deixam de ver a série por causa dela. E acabam perdendo uma história viciante, que nem as apostas que o protagonista enfrenta. Pois mesmo aquele que os ache realmente feios poderá esquecê-los de todo – experiência por qual passei, experiência que descobri que muitos também passaram - diante do que o anime tem a oferecer, como o personagem principal e os jogos do qual ele participa.

Kaiji é humano demais. Bem construído demais. Não veremos uma transformação absurda e brusca em sua pessoa. Terá mudanças, sim, mas poucas e lentas, como é comum. Mesmo quando comete erros e passa por cima deles, ele ainda é alguém sem futuro, sem objetivos na vida e que se deixa levar pelo momento, como a maior parte dos jogadores que ali estão junto dele. Ele é enganado, traído, ludibriado, humilhado; ele se conforma, planeja novas táticas, estratégias, tem ótimas ideias; é passado para trás mais uma vez, e começa tudo de novo. Quando está perdendo se pergunta por que não fez aquilo ao invés disso; quando está ganhando fica cego a tudo e vulnerável a uma nova queda. Normalíssimo.

É um personagem que sofre tanto mesmo quando não merece que é inevitável não ter certo carisma por ele e, mesmo que seja previsível, clichê, torcer para que no fim acabe vencendo e conseguindo mudar de vida. Sendo o único protagonista da história, era obrigatório tal planejamento tão minucioso sobre sua personalidade.

Que não seria suficiente sozinha; os jogos são originais, inovadores, interessantes. O que Kaiji enfrenta no navio é uma mistura de cartas com o infantil Pedra-Papel-Tesoura; em um primeiro momento parece algo realmente bobo, contudo rapidamente essa percepção muda e vemos um jogo cheio de regras e brechas para trapaças, sendo que isso definirá o futuro de todos que ali se encontram.
Com o passar dos episódios, os jogos pioram, no bom sentido; ficam mais perigosos e, proporcionalmente, mais atrativos. Jogos que farão a ”punição“ do primeiro, o trabalho escravo, ser leve, branda. E Kaiji, injustamente, enfrenta todos eles. Só por ser um vagabundo e ter um amigo que lhe passou a perna.

O que torna essa série mais viciante é o fato de quase todo episódio sempre terminar no clímax, num ponto alto; não tendo um desfecho, o obriga a querer assistir o quanto antes – caso esteja gostando do anime – o episódio seguinte. Tal empolgação também, ao que parece, contagia o narrador. Pois temos um. E esse é – também relativo – o primeiro ponto fraco da série, que já puxa o segundo.

Esse narrador, que é um ser onisciente e inexistente na história, é ouvido quase sempre no início e no fim de cada episódio e também, às vezes, no meio. Ele não apenas narra o que acontece, mas floreia, romantiza, dá emoção ao que fala.

É, de certo modo, irritante. Abusa de frases feitas e comuns para narrar cada martírio por qual Kaiji passa. E ele não é o único que faz isso.

Por todo o anime joga-se a ideia, a visão, de um mundo podre, onde o dinheiro é a única coisa realmente valiosa; onde o dinheiro – e aqui falo de valores gigantes, imensuráveis - está concentrado sempre nas mãos das mesmas pessoas, que só se importam consigo mesmas; pessoas que controlam tudo. Para elas, Kaiji e outros endividados que ele conhece ao longo dos jogos são o lixo da sociedade, a escória, vermes; enfim, tudo de ruim.

E isso dá entrada para diálogos onde são contestados os valores humanos; onde é destrinchado e analisado o homem de forma crua, como um animal; animal que só se interessa em sobreviver, não importa por quais maneiras. Esses diálogos permeiam por toda a série, porém ficam mais presentes a partir da metade da mesma, tornando-a maçante nessas partes. Às vezes tomam tanto espaço que o jogo em si, o mais importante, sai de foco. Poucas vezes eles trazem algo de interessante; a maioria termina como conversas que não chegam a nada, saindo já de ponto algum. Um recheio para completar o espaço que sobra, repleto de frases batidas e pseudo intelectuais.

Em suma, defeitos que impedem de a série tirar um dez, mas não de ser vista e apreciada.

Como segundo plano ficam as músicas de abertura e encerramento; curtas, de menos de um minuto cada, não marcam; porém suas melodias e letras se assemelham, sem forçar muito, ao que passa alguém como Kaiji; a primeira, ”rebelde“, agitada, remete ao otimismo, à fixação de conseguir ser alguém na vida, mesmo sem saber por onde e como começar, apenas tendo em mente não seguir padrões; a segunda, uma balada triste, é pessimista, mostrando que não adianta se opor, mas que se deve ainda assim persistir, reerguer-se e lutar novamente. De resto, as tocadas durante o anime criam mais dramaticidade e tensão aos jogos que já são cheios desses dois.

Passando pela estranheza ”visual“ que pode causar num primeiro momento, e fazendo vista grossa ao tipo de diálogos citados, Kaiji diverte e se sobressai. E o ponto alto é o final; dá uma sensação de ”segunda temporada vindo“ – o que não ocorreu -, contudo tem um desfecho imprevisível, marcante e que fecha um ciclo, não deixando nada sem explicação.

Fonte -> Animehaus

Nota -> 10/10
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